UMA VIDA SEM CELULAR/SMARTPHONE
UMA VIDA SEM SMARTPHONE
O SONHO
O celular entrou na minha vida da mesma forma que fez com todo mundo, substituindo meu despertador, minha calculadora, meu calendário, meu MP3, e por aí vai. E como eu venho de um mundo onde não havia internet e a tecnologia era escassa, pelo menos na realidade que eu vivia naquela época, acompanhar essa evolução dos smartphones foi fantástico.
Eu sou músico, guitarrista, toco desde os meus oito anos de idade. Com essa idade, meu irmão e eu sonhávamos como seria legal ter um canal de televisão só nosso. Na minha imaginação, com certeza seria um canal onde eu falaria de guitarra, música, instrumentos, porque essa é a minha paixão. Quando eu descobri que, com o smartphone, eu poderia realizar esse sonho, fiquei encantado com aquele mundo.
Isso me fez criar um canal no Youtube. De certa forma, devo isso a essa tecnologia. E eu quis fazer bem! Aprendi a gravar, a roteirizar, a procurar uma boa iluminação, essas coisas... Eu já era um bom músico, já tinha o conteúdo na minha mente. Estava tudo certo. Então fui conhecendo os gurus, vendo pessoas que de certa forma alcançaram bons resultados numéricos. E sim, assim como você, acreditei nessa balela de liberdade financeira, liberdade geográfica e liberdade de tempo — essa última é a mais mentirosa, rsrs.
A DESGRAÇA
Até aí estava tudo tranquilo, mas comecei a ficar obcecado pelos resultados dos meus vídeos. Todo o tempo disponível que eu tinha era usado para gravar vídeos ou passar horas vendo vídeos de outras pessoas, com a mentira na minha mente de que estava estudando.
Mas o abismo veio quando decidi ter um Instagram. Recebi recomendações de que a onda agora era o Instagram, que o YouTube já estava fora de moda, o que não era verdade, mas acreditei mesmo assim. E aí minha vida começou a ficar uma desgraça, porque a cobrança era muito maior e a produção tinha que ser diária: story, carrossel, post, reels... você tem que aparecer, senão as pessoas vão te esquecer. Quando me dei conta, meu uso de celular estava entre 7h e 8h por dia. Tudo bem que também dou aulas de violão e guitarra online, e as horas também contam, mas este vídeo é sobre celular, não redes sociais.
Comecei a ter problemas porque agora eu tinha duas plataformas para alimentar, e ainda precisava fazer meus trabalhos offline, além de ter tempo para a família, para Deus, para mim. E aí começaram os sintomas: eu sempre estava com a mente cansada, super desfocado, não conseguia fazer uma atividade e terminá-la sem pegar o celular. Comecei a receber reclamações da minha família, por estar presente de corpo, mas ausente de mente. Ficava irritado com meu filho quando ele queria brincar enquanto eu "trabalhava". Até para estudar guitarra, minha fonte de trabalho, eu estava sem tempo.
Nunca gostei da frase "O celular é uma extensão do seu corpo". Eu já tenho no meu corpo tudo o que preciso para viver. Me incomodava a sensação de ter que levar o celular para todo lugar, de olhar ao redor e ver todos com seus celulares, ignorando a vida real, ignorando diversas obras de arte do dia comum. Comecei a perceber que estava distante da minha família, dos meus amigos, de Deus e, o pior, de mim mesmo. Não suportava a ideia de ficar só comigo e com a minha mente, parecia algo torturante.
A BUSCA
Bom, identifiquei que estava viciado em algo que era lícito e, de certa forma, necessário. Comecei a buscar soluções. Sim, vi os mesmos vídeos que você já viu e tentei seguir as dicas oferecidas. Não duvido que elas possam ter ajudado as pessoas que fizeram os vídeos, mas para mim não serviram. Deixar a tela do celular em preto e branco, desabilitar as notificações, colocar timer, guardar o celular na gaveta... perdi as contas de quantas vezes apaguei e reativei meu Instagram. Enfim, tentei de tudo, e nada funcionou para mim.
Os meus sintomas continuavam se agravando. Até que eu tive uma bela crise interna e me questionei: o quanto o celular melhorou a minha vida e a da minha família? Até o ano de 2015, eu era um cara super low profile (essa palavra nem era conhecida naquela época). Sempre amei minha privacidade, gostava de passar horas e horas treinando meu instrumento, e desejava esses momentos. Tirava tempo para assistir shows dos meus artistas favoritos, ahhhh, o silêncio de um momento de leitura, meus momentos de oração, sair para correr... e fazia tudo isso sem a necessidade de mostrar para o mundo o que eu estava fazendo, porque aqueles eram os meus momentos.
Tentei achar um equilíbrio para o uso de celular, mas não obtive bons resultados. Talvez eu seja mais propenso ao vício em telas, sei lá, algo do tipo.
A CURA
Bom, precisei de algo mais radical para sentir que tinha minha vida de volta. Graças a Deus, tive problemas financeiros e precisei vender algo de valor para cobrir uma pendência. Resolvi vender meu celular, que era bom. Resolvi minha pendência e, naquele momento, aproveitei para decidir experimentar como seria a vida em 2024 sem celular.
Sim, pensei: "Como vou fazer com o banco, com minhas aulas online, como vou me comunicar com familiares e alunos, como vou ouvir minhas músicas?"
Precisava encontrar soluções para todas essas coisas, e já falo sobre elas mais à frente. Na primeira semana, me senti empolgado, mas experimentei uma onda brutal de tédio. Toda hora eu batia a mão no bolso procurando o celular. Não tinha a sensação de estar perdendo algo, porque ainda estava acessando o Instagram pelo computador. Era como se eu estivesse em abstinência de dopamina. Sem fones, sem tela, sem fotos — era eu e minha mente no mundo real de novo.
A SEGUNDA SEMANA
A segunda semana já começou a ficar mais interessante. Voltei a ler, a assistir gravações de shows, a ter conversas profundas com minha esposa e a me sentir mais conectado a ela. Passei a dedicar um tempo só para brincar com meu filho, reservei um tempo para minhas orações. Passei a enxergar as necessidades físicas e emocionais da minha família com mais clareza, comecei a cuidar do meu corpo junto com minha esposa, e passamos a malhar juntos. Voltei a treinar meu instrumento sem a necessidade de ter uma câmera me gravando ou de correr para aprender uma técnica superficialmente só para postar um story. Não. Agora, voltei a estudar como antes, para mim e por mim, pelo amor de tocar bem. Deletei definitivamente meu Instagram, pois não havia mais motivo para estar lá. Eu via apenas anúncios, mentiras e coisas muito superficiais, então não fazia mais sentido para mim.
Mas os benefícios na minha mente são a melhor parte. Hoje estou com uma mente menos barulhenta, conseguindo ouvir a mim mesmo. Não estou preocupado com o que está acontecendo no mundo — o que for realmente importante vai chegar até mim. Diminuiu muito aquela sensação de urgência, de que tudo é para agora, de que você deve parar tudo para responder mensagens. Não! Escrevi este texto sendo interrompido apenas para ter uma conversa gostosa de um dia comum com minha esposa. Voltei a perceber a vida, as obras de arte nas janelas do ônibus, as sinfonias dos motores dos carros, o silêncio que uma tarde na praça vendo as crianças brincarem pode trazer.
Não sei o papel que o celular desempenha na sua vida e a importância que ele tem para você, mas um exercício que convido você a fazer é: se hoje fosse o último dia de uma pessoa que você ama, você gostaria de passar esse dia mexendo no celular?
COMO ME VIREI
Bom, minha esposa ainda tem o smartphone dela, porque ela não tem os mesmos problemas que eu tive; ela tem um uso bem moderado. Minha conta bancária está no celular dela, mas estou seriamente pensando em voltar a ter uma conta em um banco físico, já que os bancos digitais não me permitem mais usar o banco pelo computador. Ainda continuo gravando vídeos pro meu canal no youtube mas sem cobrança. Comprei um MP3 e consegui um celular antigo com o avô da minha esposa, com câmera VGA e teclado numérico. Toda vez que pego nele, tenho uma sensação super nostálgica. Quando preciso ficar fora de casa por muito tempo, levo ele, mas sem problemas de distração. Comprei uma webcam para continuar minhas aulas, e tudo o que preciso do mundo online faço pelo computador, o que me dá muito mais liberdade.
Bom, me afastar totalmente dos smartphones foi o que funcionou para mim e para minha sanidade mental. Penso no celular como um cigarro — só vamos descobrir seus efeitos lá na frente. Mas tudo o que vicia e traz coisas ruins, na minha concepção, não vale a pena continuar. Espero que minha história te ajude.
Lucas Ramos

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